Jaya 2.0
Capítulo 1: por um punhado de lixo
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Jaya sentou-se em frente ao espelho e concentrou-se. Pouco a pouco, os olhos e os cabelos escureceram, as maçãs do rosto salilentaram-se um pouco mais, os olhos se amendoaram. Dois ou três minutos e se tornara uma perfeita mexicana.
– Pra quê tanto trabalho? – perguntou Anael – eu posso te colocar dentro do escritório do Walker Tuft num segundo!
– Não, Anael. Poderia até dar certo se Tuft for um humano normal, mas é exatamente isso o que temos de investigar. Se for um trantoriano, ou coisa que o valha, deve haver detectores de teletransporte no prédio ou nas vizinhanças.
– E então?
– Há uma vaga de faxineira no prédio da Tuft Corporation; vou me candidatar para ver como é isso por dentro. Agora, teletransporte-me para um cantinho discreto do Central Park, em Nova York.
O portal se abriu no meio de um arvoredo. O lugar era tão discreto que um casal de namorados que se beijavam escondidos tomou um tremendo susto com a moça que saiu do nada e tropeçou neles. Pularam e correram, ajeitando a roupa.
– Ops! Sinto muito. Não vi vocês. <Anael, eu te pego!> – Jaya acrescentou por telepatia.
– <Desculpe, deve ter sido uma falha dos meus sensores>.
– <Mais uma dessas e teus sensores vão ver mais estrelas do que as que há nesta galáxia>.
– <Calma. Você não tem senso de humor?>
– <Agora escute. Talvez tenha que passar aqui alguns dias. Tome meu lugar na faculdade e represente meu papel. Use o padrão de pseudo-materialização, use minha matriz de personalidade e tome cuidado para não estragar minha reputação. Não faça nada que eu não faria>.
– <Nem colar na prova?>
– <Pode usar todos os bancos de dados que quiser. Agora, suma!>
– <Mundo, se prepare para a Virtual Jaya versão 2.0!>
– <A-NA-EL!!!!>
– <Brincadeira, brincadeira! Pode ficar calma, vou me comportar.>
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Ser contratada como faxineira não foi tão fácil quanto tinha pensado. Primeiro, preencher um formulário enorme e absurdo:
(...)
13) Tem algum problema físico que a impeça de levantar mais de 20 kg?
<Não. Até 1.500 kg, sem problemas.>
(...)
17) Você tem habilidades especiais?
<Sim. Dê-me uma folha de sulfite que faço um resumo.>
(...)
32) Quem você prefere enfrentar numa luta livre – o Super-homem ou o Homem-Aranha?
<O Super-homem. Não gostaria de machucar o Homem-Aranha. Mas é preciso fazer isso para ser faxineira?>
(...)
57) Alguma vez pertenceu a alguma organização socialista, comunista, anarquista, subversiva ou terrorista?
<Depende. Em qual dessas categorias vocês classificariam a Solidariedade Galáctica?>
(...)
83) Já consumiu drogas?
<Você não imagina as porcarias que servem na lanchonete da faculdade. Mas se quer dizer psicotrópicos, não faria diferença. Sou imune a todos.>
(...)
85) Alguma vez traficou drogas?
<Ajudei a vender Coca-cola na quermesse da universidade. Isso conta?>
(...)
92) Já foi presa ou condenada por qualquer ofensa ou crime, ainda que tenha posteriormente sido perdoada ou anistiada?
<Uma vez fiquei de castigo, quando estava no pré. Foi quando montei uma espada laser no laboratório da escola e cortei a mesa ao meio. Tive que ir a uma fábrica de móveis e ajudar a montar um monte de mesas novas.>
(...)
99) Já injuriou, difamou, maldisse ou dirigiu palavras chulas a alguma autoridade?
<Não. Mas nos últimos minutos estive com muita vontade de fazer isso.>
100) Você certifica ter respondido tudo de forma verdadeira e completa?
<Bem, tente provar que não.>
Depois, uma interminável entrevista com uma selecionadora carrancuda que não fazia questão nenhuma de esconder que não gostava de latinos.
– Juanita Hernandes García. Você veio de muito longe, não é?
– Sim, madame. <Você não faz idéia quanto. Para ser exata, 5.032 anos-luz>.
– De Xochimilco, diz o green card. Uma dessas aldeiazinhas miseráveis do interior, com certeza.
– Desculpe, madame, mas é um município histórico e turístico que faz parte da zona metropolitana da cidade do México, a segunda maior do mundo. Maior que Nova York. <E você devia ver minha verdadeira cidade natal, sua anta>.
– Espertinha, hem? Se é tão bom por lá, o que veio fazer aqui?
– Vim principalmente estudar <seu planeta, quero dizer>. Preciso de um emprego para ajudar a pagar a faculdade de inglês.
– Quem mandou nascer no país errado? É como minha mãe dizia: se Deus quisesse que as pessoas falassem outras línguas, não teria escrito a Bíblia em inglês. É uma piada, você entendeu? Não, aposto que não. Bem, responda este teste e vamos ver. Você tem quarenta minutos.
Quando Juanita trouxe o teste em menos de cinco minutos, a doutora Ethel Claughton pensou, aliviada, que ela tinha desistido. Mas foi conferir e o queixo caiu até lhe dar cãibra: todas as respostas estavam certas.
Por alguma razão inexplicável, o quociente de inteligência tinha um peso decisivo na seleção de faxineiras. Não tinha jeito. Juanita tornou-se a primeira e última diarista com QI 502 na história da Tuft Corporation.
O primeiro dia não foi muito produtivo. Nem o segundo. Nem o terceiro. Nem o quarto. Limpou centenas de privadas, espanou milhares de cubículos, esvaziou incontáveis cestas de papéis, mas não conseguiu chegar nem perto da mesa do chefão.
No quinto dia, finalmente, teve sua oportunidade. A faxineira que normalmente cuidava do andar da Presidência, reservista da infantaria, havia sido convocada para três dias de treinamento. Juanita ofereceu-se para substituí-la.
– Está bem, disse o zelador-chefe. Hoje você cuida do andar do big boss depois do trabalho regular e ganha uma hora extra. Deixe tudo um brinco! Parece que hoje está fora, mas nunca se sabe quando vai aparecer. Vem trabalhar nos horários mais estranhos e faz questão de não encontrar um só grão de poeira!
O conjunto ocupava todo um andar. Havia sala de espera, ante-sala, sala de reuniões, sala de jantar, biblioteca, banheiros, quarto de dormir e até um escritório propriamente dito, tudo muito moderno e luxuoso.
Mas nada do outro mundo, pelo menos no sentido que teria interessado a Jaya. Tudo parecia autenticamente terráqueo. Ficou com muita vontade de mexer nas gavetas, mas era claro que haveria um monte de sensores e alarmes, principalmente se o homem fosse quem ela achava que era.
A esperança tinha ido para o lixo. Literalmente. Recolheu cuidadosamente cada pedacinho de papel, copinho de plástico e grão de poeira, meteu em um saco. Levou-o para o depósito, marcando-o com uma fita amarela.
À noite, quando chegou o caminhão do lixo, Jaya ficou de tocaia, no alto da marquise do prédio vizinho. Assim que apareceu o saco marcado, saltou, arrancou-o das mãos dos perplexos lixeiros e correu para o Central Park. Um policial viu a cena, mas quando apitou, ela já havia saltado a cerca e sumido na escuridão. Tchau, tchau, Juanita.
Capítulo 2: uma reunião do outro mundo
Segundos depois, Jaya estava dentro do laboratório, esvaziando o conteúdo do saco de lixo sobre a mesa. Havia poeira, restos de comida e copinhos com restos de líqüidos que valia a pena analisar. Mas, primeiro, o mais rápido: os papéis.
Havia um monte de relatórios e memorandos da Tuft. Todos bem picados, é claro, mas, com os recursos de Anael era facílimo reconstituí-los.
Dois dos papéis mencionavam falcatruas bem cabeludas. Um vice-presidente responsável pela divisão de petróleo pedia mais seiscentos mil dólares para subornar um senador. Tratava-se de rejeitar um projeto de lei ambiental que complicaria a construção do “Projeto Especial X-07”. Outro avaliava que custaria mais três milhões persuadir o Secretário da Defesa da necessidade de um novo míssil. Nada excepcional para uma grande corporação terráquea, lógico.
Havia outro ainda mais interessante. Mencionava o fracasso da operação em Pala e propunha um plano B: convencer a Casa Branca de que é necessário invadir a ilha e “libertar” o seu povo. O Presidente Kalevala não ia gostar de saber disso.
Outro, ainda, era uma página arrancada de uma agenda. Havia uma lista de horários e telefonemas, feitas por uma secretária, seguidas de anotações que deviam ser do próprio Tuft: OK, não, adiado etc. Na margem inferior, a mesma caneta havia feito uns rabiscos engraçados:
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– Achei, Anael! Já o pegamos!
– O que é isso? Algum código?
– Que código, que nada. Isto é trantoriano clássico, com vocabulário e caligrafia bem refinados. Estamos lidando com um agente de alto padrão.
– Você sabe trantoriano?
– A língua clássica, a popular e mais sete dialetos regionais. Você pensava que para ser espiã da Solidariedade Galáctica só é preciso aprender a dar sopapos e usar engenhocas?
– Muito dez, mas o que diz aí?
– “Kleon Betgahr uyon irihmuh zetyahr irubb dah!”
– Hã...?
– Isso significa, mais ou menos: “O dia de reverenciar respeitosamente o Imperador Kleon é amanhã!” O nome do Imperador está cercado por um retângulo. É costume fazer isso com nomes de trantorianos importantes, mas não em anotações pessoais. Deve ser um milico bem caxias.
– Incrível.
– Não. Elementar, meu caro Anael.
– O que é incrível é um babaca como esse ter se tornado espião. Mas para que time ele torce, sabidona?
– Continuando, a penúltima palavra, que significa “amanhã” foi destacada com amarelo. Era uma comemoração que ele não queria esquecer. Consulte o calendário trantoriano no banco de dados. Houve algum dia do Imperador Kleon em data recente?
– Os trantorianos comemoram quatro aniversários do Imperador durante o ano de Trantor que equivale a 582,7 dias terrestres. Dia do nascimento, da confirmação, do casamento e da coroação. A mais recente foi o dia do nascimento, uma espécie de Natal para os trantorianos. Em termos do calendário terráqueo, hora de Nova York, começou às 23:05 de 10 de maio e acaba às 13:09 de 12 de maio, sábado – ou seja, hoje – pois o dia deles tem 38,068 horas...
– Então Kleon é taurino, como você? Eu devia ter imaginado...
– Isso não faz sentido. Para começar, nem o ano, nem o zodíaco da Terra 1 se aplicam a Trantor...
– Claro que não. Brincadeirinha. Então, foi por isso que ontem ele não apareceu na Tuft. Bom, trate de processar um curso rápido de trantoriano. Pode ser útil. Enquanto isso, vou entrar em contato com a base para ver o que eles acham da situação.
Jaya ligou o transceptor quântico e pediu o mestre Aléxis, na base do sistema Caramuru, a mais próxima da Terra-2. O holograma surgiu quase instantaneamente.
– Companheiro Aléxis, temos um problema...
Explicou o que tinha descoberto. Aléxis achou que o problema era delicado e era melhor consultar a grã-mestra Sanape, no centro setorial do sistema Ílion. O segundo holograma apareceu.
Sanape o ouviu e resolveu consultar o centro principal no sistema Velox. Mostrou-se o arquimestre Jacques, que decidiu pedir a opinião dos outros membros do Pequeno Conselho, que chamaram alguns assessores para participar.
A holoconferência já preenchia toda a sala com figuras flutuantes. Entre elas, estava KRXT-98,65, o presidente do Pequeno Conselho, que ao flutuar pela nave parecia uma lula alaranjada – em miniatura, pois o cigniano não caberia ali em seu tamanho natural.
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– O assunto é importante demais para ser resolvido aqui e agora – disse KRXT-98,65 em sua linguagem radiofônica. Proponho ao Pequeno conselho adotarmos uma orientação provisória até que o caso possa ser discutido no Grande Conselho. De acordo?
Os demais concordaram. Jacques tomou a palavra:
– Este não é o procedimento usual dos trantorianos. Quando querem conquistar um planeta, não costumam usar muita sutileza. Enviam uma frota tão grande quanto necessário e acabou-se.
– Mas não fariam isso no espaço em que está a Terra-2 – cantou o arquimestre centauriano Dochiwinaremibosifalasolyu, em sua língua musical. Está muito perto das bases da Solidariedade Galáctica e muito longe da fronteira trantoriana. Seriam enfrentados e provavelmente dizimados.
– O que eles devem estar tentando é um golpe de propaganda – disse Jacques. Se um mundo na fronteira da Solidariedade Galáctica pedisse voluntariamente sua anexação ao Império de Trantor, seria uma vitória moral para eles – e um grande incômodo para nós.
– É possível – concordou KRXT-98,65 – e este planeta é particularmente adequado. Seus habitantes são humanos, ainda que primitivos. Enquadram-se no que os trantorianos consideram a espécie superior. Talvez se sentissem honrados por serem incorporados ao Império.
– Não só isso – disse a arquimestra Miyah. Pelo que Jaya já nos contou, o padrão sócio-político da Terra-2 torna especialmente sedutoras as promessas de riqueza e poder que os trantorianos podem oferecer para seus líderes – e mesmo para muitos do seu povo.
– <Podemos fazer melhor> – transmitiu telepaticamente o arquimestre prociônida E8D4-A50FF-FF4A-89A9. <Podemos oferecer cooperação, igualdade, liberdade e solidariedade>.
– Esses valores são importantes para muitos nativos da Terra-2 – opinou Jaya – mas poucos que pensam assim estão em posição de autoridade. E a maioria dos terráqueos é submissa à autoridade, tende a seguir seus líderes sem pensar. Nós, terrígenas, também éramos assim há menos de dois mil anos.
– Teremos então que disputar seus corações e mentes com os trantorianos – disse Miyah. No momento em que os trantorianos fizerem sua proposta, os povos terráqueos terão de saber que existe uma alternativa.
– Se for mesmo assim, pelo menos não teremos de travar batalhas interestelares – comentou KRXT-98,65. Mas, a julgar pelo que já aconteceu em Pala, não podemos esperar que a disputa seja muito civilizada. Precisamos discutir com mais calma. Proponho levar a questão ao Grande Conselho para que defina uma ampla estratégia. Enquanto isso, proponho também que Jaya seja orientada a fazer o possível para desbaratar os planos dos trantorianos que representem perigo imediato, mesmo que seja preciso revelar a presença da Solidariedade Galáctica na Terra-2 aos trantorianos e aos terráqueos.
Os seis outros membros do Pequeno Conselho concordaram.
– Voltaremos a contatá-la em breve, Jaya. Contamos com você – disse Jacques.
Todos os hologramas fizeram uma reverência e desapareceram instantaneamente, deixando-a sozinha com seus pensamentos. Por um microssegundo.
– JAAAYAAAAA!!!
– Que foi, Anael? A frota trantoriana nos atacou? O sol explodiu?
– Veja só o que eu consegui!
Anael havia analisado fios de cabelo e células de pele misturadas à poeira recolhida do escritório de Tuft. Identificou os códigos genéticos de dezenove diferentes indivíduos e, com um programa de simulação genética, deduziu sua aparência e seus traços de personalidade prováveis.
O retrato genético é melhor do que nada, mas não é infalível. Aquilo em que os seres realmente se tornam não depende apenas dos genes, mas também de como e onde são criadas, do que se alimentam, como se exercitam, dos acidentes e doenças que sofrem, de cirurgias plásticas e implantes biônicos.
Quinze das simulações eram humanos comuns. Um deles Jaya reconheceu como um dos diretores que vira passar pelo escritório: bastava raspar a barba, cortar o cabelo do jeito certo e colocar um par de óculos para ficar perfeito. Havia também oito mulheres e seis homens que não conhecia, mas que provavelmente encontraria nos registros da companhia.
As outras quatro simulações eram muito mais interessantes. Eram homens trantorianos, muito semelhantes aos terráqueos, mas caracterizados pela ausência de pelos no corpo (salvo cabelos, sobrancelhas e cílios), pelo físico de bonequinhos “Comandos em Ação” e por diferenças fisiológicas pouco visíveis, mas que os tornavam fisicamente pelo menos tão poderosos quanto os nativos da Terra-1 – e, às vezes, bem mais – se bem que menos inteligentes e flexíveis.
O número um parecia ser um tipo comum, sem características físicas ou mentais particularmente notáveis. Cabelos loiros, olhos azuis, 1,85 m de altura, 90 kg, inteligência média para um trantoriano. Um ajudante de ordens, talvez?
O número dois era mais alto e com uma estrutura óssea e muscular muito mais robusta. Possivelmente nativo de uma colônia trantoriana adaptada a um planeta de gravidade muito alta. Cabelos negros, olhos azuis, 1,90 m de altura, mais de 130 kg de ossos e músculos, inteligência também dentro da média trantoriana.
Um encarregado da segurança, talvez, mas alguém para se tomar cuidado. A julgar pela simulação, devia ser dez vezes mais forte do que ela. Daria para erguer uma jamanta.
O número três era fisicamente menos desenvolvido: cabelos negros, olhos cinzentos, 1,80 m de altura, 82 kg, mais inteligente que a média trantoriana, mas frágil do ponto de vista emocional.
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Seu código genético continha um gene raro que nos trantorianos, segundo Jaya sabia, estava associado tanto a perturbações emocionais às vezes graves, como também a estranhos poderes paranormais, como telepatia e clarividência.
O número quatro era louro, olhos castanhos, tinha 1,88 m de altura, 87 kg, inteligência acima da média e personalidade particularmente forte e agressiva.
Provavelmente, o chefe. Seria esse o rosto do misterioso Mr. Tuft?
Segundo a única pessoa que dissera a Jaya tê-lo visto de perto, uma copeira, o homem era rígido e severo, mas surpreendentemente jovem, louro, bonito e musculoso, “um gatão”. O retrato falado era compatível com o genético.
Bom, já sabia bastante. Agora era a hora de descansar. Amanhã haveria muito que fazer.
Pediu a Anael para programar a janta: salada de lagostim com palmito e agrião, frigideirada de frutos do mar, arroz com pequi, suco de graviola e folhado de chocolate aromatizado ao limão, com gomos de laranja. Uma coisinha simples, só para matar as saudades da comidinha da Terra-1.
Capítulo 3: Jaya fica brava, mesmo
O Projeto X-07 se escondia em um deserto montanhoso do Texas, uma área enorme, longe da estrada e cercada por uma cerca eletrificada com seis metros de altura, com guaritas cheias de guardas armados a cada duzentos metros.
Não havia sinais evidentes de poluentes químicos. O que estava causando problemas com a fiscalização ambiental era a morte de coiotes, pumas e outros animais selvagens protegidos, eletrocutados pela cerca. Além do consumo d’água excessivo, que drenava o lençol freático da região.
Jaya vestiu o manto da invisibilidade. Muito parecido com um shinobi de ninja do cinema, mas o capuz cobria também os olhos. Ah, sim, e o tecido tinha a propriedade de transmitir o panorama que se vida das costas para a frente, da esquerda para a direita e vice-versa, tornando o usuário totalmente transparente. Além disso, absorvia cheiros e sons. Mesmo um sabujo não a perceberia.
Anael flutuava logo atrás dela, com a forma invisível de Virtual Boy.
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Pareceu fácil demais pular a rede sem ser vista. Ignorou o que se assemelhava a um complexo de galpões e escritórios e saltou sobre as pedras diretamente para onde os sensores de Anael indicavam haver uma construção oculta, no meio das rochas.
– <É aqui, Anael?>
– <Sim, bem debaixo daquela pedra meio vermelha.>
– <Pense mais baixo. Não sabemos que sensores eles têm.>
Havia um portão meio oculto na sombra das pedras, ladeado por dois guardas que seguravam rifles pesados. Trantorianos? A olho nu, não era fácil dizer. Talvez fossem apenas terráqueos bem barbeados e fanáticos por musculação.
Era preciso saber, antes de usar o paralisador. Se fossem terráqueos e usasse uma descarga suficientemente forte para fazer efeito em trantorianos, poderia matá-los. Só havia uma maneira de ter certeza.
–
– Jaya bradou, com uma voz máscula e autoritária de sargento
trantoriano.
Os guardas, instantaneamente, colocaram-se em posição de sentido e esticaram os braços direitos, repetindo em resposta a saudação trantoriana:
– ![]()
Kail Kleon! – ou seja, Ave, Kleon!
No ato, Jaya disparou e os dois se petrificaram naquela mesma posição, como que transformados em estátuas romanas. Assim ficariam por uns sessenta segundos. Pulou e examinou o portão. Havia um teclado como o de um telefone. Com certeza, o abriria se digitasse a senha certa.
Um projeto terráqueo, bastante simples. Anael atravessou o portão, contatou os circuitos e achou facilmente a senha vigente, por sinal não muito criativa: “tuftwin”. Brincadeira de criança. Jaya a digitou e o portão automático abriu-se.
Ela entrou e caminhou silenciosamente por um longo corredor subterrâneo. Olhou por uma janela e viu uma espécie de laboratório onde trabalhavam pessoas de avental branco. Terráqueos, sem dúvida: dois deles até tinham bigode.
Um faxineiro passou com um carrinho de lixo, sem vê-la. Dirigia-se para o portão, já fechado. E se visse os guardas petrificados?
Mas, não. Digitou a senha, o portão se abriu e o trabalhador passou, assobiando. Os guardas haviam se recuperado da paralisia como de uma tontura momentânea, sem lembrar nada nem desconfiar de que algo anormal havia acontecido.
Jaya e Anael prosseguiram. Havia outros laboratórios, escritórios, depósitos e salas com equipamentos científicos, aparentemente construídos dentro de padrões terráqueos, mas ligeiramente avançados demais.
Chegou, então, a um corredor guardado por dois seguranças corpulentos – estes terráqueos, como se via pelos rostos ásperos – que não a perceberam. Dentro, havia uma fileira de jaulas. Olharam dentro de uma delas.
Eles já haviam tido um bocado de experiências desagradáveis. Mas era a coisa mais pavorosa que já tinham visto.
Havia pessoas dentro daquelas jaulas imundas: homens, mulheres e crianças. Rostos sofridos, desesperados, apavorados. Alguns, deitados, gemiam baixinho. Outros sussurravam em diferentes línguas. Uma delas, Jaya podia entender: era árabe. Outra, não. Curdo ou pashto, talvez?
Alguns deles tinham próteses estranhas: braços mecânicos, pernas de aço. Outro tinha orelhas peludas e grandes demais, rodeadas de uma cicatriz vermelha como se tivessem sido implantadas há pouco. Alguns estavam com a pele cheia de manchas escuras, outros com bolhas vermelhas. Muitos estavam com febre.
Pelo que conseguia ouvir dos sussuros em árabe, pôde deduzir o resto. Haviam sido seqüestrados por homens da Tuft durante a recente guerra no Oriente Médio. No meio do caos e das ruínas provocado pelos bombardeios, era fácil. Mesmo que alguém sentisse a falta dessas pessoas, teria suposto que haviam sido mortas e soterradas.
Essas pessoas não compreendiam direito o que estavam fazendo a elas, mas Jaya e Anael podiam imaginar. A Tuft as estava usando como cobaias de experiências com drogas, implantes, transplantes e, talvez, também com armas biológicas. Parte, provavelmente, do plano para incorporar a Terra-2 ao Império de Trantor.
Haviam visto e ouvido o suficiente. Hora de sair. Silenciosamente, fizeram o caminho de volta e esperaram, colados no corredor junto ao portão, pelos próximos a sair. Três minutos depois, um grupo de homens de avental chegou, um deles digitou a senha e o portão abriu. Jaya e Anael saíram no meio deles, sem que nenhum deles suspeitasse que estavam sendo acompanhados.
Fizeram o caminho das rochas sem incidentes e já haviam pulado sobre a cerca quando algo enorme caiu sobre Jaya.
Seus reflexos ultra-rápidos a salvaram. Com um arremesso de potyrajuatim (“o espinho da flor”, arte marcial desenvolvida pela Ordem da Rosa da Terra-1 há cerca de dois mil anos) ela jogou o gigante contra a pedra mais próxima, que estalou e rachou com o impacto.
Ele levantou-se imediatamente, como se nada tivesse acontecido. Era, sem dúvida, o trantoriano número dois, o mais forçudo daqueles que haviam aparecido na simulação genética.
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Socou-a uma vez. Ela se esquivou. Saltou atrás dela e socou-a de novo, com um som de chicotada. Ela esquivou-se, pulou por cima e tentou um rabo de arraia na nuca. Soou como um bate-estaca, mas o titã nem chegou a perder o equilíbrio e ela ainda ficou com o pé doendo. Virou-se, socou de novo e, desta vez, acertou.
Jaya, ao perceber que não conseguiria evitar o golpe, arremessou-se para trás para receber apenas uma fração do impacto, ainda assim o suficiente para deixar sua barriga dolorida. Deu um salto mortal para trás e caiu de pé.
Como ele a percebera? O único meio seria o calor, mas os trantorianos não tem visão infravermelha. Nem voam. Aquele devia estar bem turbinado. Implantes biônicos, com certeza.
Os olhos do brutamontes lançaram uma espécie de laser, que chamuscou de raspão o manto invisível de Jaya e fez uma pedra ao lado dela explodir em fagulhas. Aquilo podia acabar muito mal.
– <Quando eu pensei que preferia enfrentar o Super-homem, não imaginei uma coisa dessas!> – pensou Jaya. <Anael, velhos truques ninjas dois e cinco!>
Anael, ainda invisível, produziu uma nuvem de fumaça que desconcertou o trantoriano por um momento. Jaya aproveitou para saltar para longe, enquanto Anael imitava sua forma no infravermelho.
– Você não me pega! Você não é de nada!– disse Anael, imitando a voz de Jaya.
O titã disparou seu laser várias vezes contra a forma transparente de Anael, conseguindo apenas atravessá-la e espalhar mais faíscas. De repente, notou a outra Jaya saltando já a dezenas de metros de distância. Esqueceu a falsa e saltou atrás da verdadeira, que já havia se escondido numa gruta entre rochas caídas.
Isto era perigoso. Mas não havia outra saída. Não havia tempo nem espaço para abrir um portal de teletransporte.
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Anael, que voltara à forma de Virtual Boy, tentava distrair o monstrengo que revirava as rochas atrás dela, mas era como uma mosca tentando chamar a atenção de um touro furioso.
Jaya sentou-se em posição de lótus, esvaziou a mente e meditou, concentrando suas forças até o extremo. Um, dois, três segundos.
O grandalhão ergueu, de repente, a pedra atrás da qual se escondia. Jaya arrancou o capuz e se levantou entre as sombras da gruta, não mais invisível. As reservas de energia em seu corpo haviam sido excitadas a tal ponto que um campo de força brilhava em torno de sua cabeça, que parecia flutuar na escuridão.
Surpreendido com a cena estranha, o trantoriano hesitou por um momento. Um erro fatal. Jaya saltou com uma força terrível e, com o estrondo de um trovão, acertou-lhe um martelo voador.
O homenzarrão caiu inconsciente. Jaya, exausta e ofegante, aproximou-se cautelosamente, massageando o pé dolorido. O trantoriano era duro como aço.
Mas o corpanzil estrebuchava. O peito estava afundado e sangue escorria pelo nariz e pela boca.
Anael, impressionado, disse:
– Jaya, essa doeu até em mim. Às vezes você me dá medo.
– Você ainda não me tinha visto realmente brava. Agora que sabe como é, comporte-se.
– Como é bom ser virtual...
– Vamos, abra um portal pra já. Ele está agonizando. Precisamos levá-lo para a nossa enfermaria.
– Tem certeza? Ele quase te matou!
– E vai tentar de novo, se puder. Mas deixá-lo morrer não resolve nada. Há mais deles de onde veio este. Além do mais, se ele sumir vai haver um rebuliço na Tuft que eu gostaria de evitar.
Vinte segundos depois, estavam de volta à nave, Jaya com o trantoriano às costas. Tirou-lhe as roupas, colocou-o dentro da banheira de reconstituição, colocou-lhe no nariz e na boca a máscara com oxigênio e anestésico, ajeitou no lugar as costelas quebradas, banhou-o em nanofluido e assumiu os controles.
Era o procedimento padrão para tratar de ferimentos graves, principalmente em seres sem poderes de regeneração acelerada. Os nanomecanismos contidos dentro do fluido reconstituíam as células danificadas, os vasos rompidos e os ossos quebrados com uma velocidade espantosa.
Jaya aproveitou para conferir a identificação do trantoriano, microgravada em código numa plaqueta escondida dentro de seu crânio. Capitão Ster-puh, natural do planeta Mudru, tipo de sangue Z negativo, número de identificação 123.989.909.678.498, do 3.677º regimento de fuzileiros espaciais. Uma tropa de elite, totalmente formada de ciborgues. Este, além de olhos biônicos, tinha placas antigravitacionais, processadores e uma armadura dérmica implantada no corpo.
Em meia hora, Ster-puh estava novinho em folha, apenas desacordado devido ao anestésico. Jaya apagou-lhe a memória dos últimos cinco minutos antes de desmaiar, vestiu-o de novo com as roupas já limpas e pediu a Anael para deixá-los de novo na Terra, perto da cerca.
Deixou o homem à sombra de um penhasco e ali ele acordou, pensando que havia sentado para descansar e cochilara. Apesar de toda a bagunça, ninguém na Tuft havia percebido a espionagem.
Capítulo 4: a torcida faz o gol
Como agir? Não seria impossível detonar aquela instalação, mas também não seria muito eficaz. Poderiam fazer outra, mais bem camuflada. O ideal seria deixar os próprios terráqueos descobrirem o que a Tuft estava fazendo e botarem a boca no mundo.
Jaya selecionou três jornalistas que haviam estado na última guerra do Oriente Médio, sabiam árabe e eram corajosos, inteligentes e críticos. O norte-americano Aaron Rifkin, a italiana Oriana Pecchio e o inglês Peter Fisk.
Mudou seu cabelo para ruivo e encaracolado, os olhos para azuis, produziu sardas e rugas na pele e tomou a identidade falsa de Anne Gauge, uma cientista da Tuft Genomics, com peso e altura adequados, que Jaya havia descoberto estar em casa, de licença por um infarto recente, e da qual havia registrado a voz e a aparência. Contou-lhes que havia descoberto que a Tuft estava envolvida em diversas atividades ilegais, das quais a mais escandalosa e terrível era o uso de cobaias humanas.
Explicou que era uma ex-funcionária arrependida e não podia contar todos os detalhes de como havia descoberto a trama, mas podia levá-los até lá com ajuda de um amigo, Bob Fields. Anael disfarçado, é claro.
Convenceu-os a encontrarem-na em San Antonio no dia seguinte. Com “Bob“, levou os três repórteres até o deserto do Texas com uma perua de excursões, que estacionou em um canto discreto e seguro. Já era noite.
Dali, os cinco foram a pé, de aventais brancos, com Anne à frente. Ela havia preparado um túnel para passar sob a cerca eletrificada e os fez passar. Levou-os para perto da instalação secreta e disse-lhes para esperar um momento, enquanto via se não havia guardas no momento.
Havia, sim. Os mesmos que encontrara da outra vez. Deu-lhes uma forte descarga do paralisador, suficiente para deixá-los inconscientes por um bom tempo. Escondeu seus corpos rígidos em um canto escuro, voltou e disse à turma que a barra estava limpa.
“Bob” examinou rapidamente a fechadura.
–<”tuftistherealthing”> – soprou para “Anne”.
Ela digitou a nova senha e o portão se abriu. Os cinco entraram e dirigiram-se diretamente ao corredor secreto, sem olhar para os lados. “Anne” chegou aos guardas da masmorra, disse-lhes que já havia se recuperado e havia trazido alguns novos colegas para examinarem os “pacientes”.
– E não se preocupem. Eu respondo por todos eles.
Os jornalistas entrevistaram as vítimas em árabe e pashto, fizeram gravações e filmagens e tiraram fotos sem que os guardas desconfiassem. Em seguida, saíram tranqüilamente, pela porta da frente.
Já iam saindo da boca do túnel quando alguém os viu de uma das guaritas e abriu fogo. Oriana caiu ao chão, ferida. “Anne” a pôs nas costas e saiu em disparada, com os outros correndo atrás. Enquanto isso, “Bob” fingia atirar de volta: havia sacado de baixo de seu avental uma metralhadora virtual suficientemente assustadora para manter todos os guardas à distância. Contanto que o grandalhão não aparecesse...
Felizmente, parece que o trantoriano estava em alguma outra parte. Mas quando “Anne” chegou à perua, percebeu que Oriana estava muito mal. Um tiro de metralhadora havia lhe perfurado o baço e ela estava sofrendo uma grave hemorragia. Não havia tempo para levá-la a um hospital.
“Anne” sacou da mochila dois elásticos e uma sonda com agulhas nas duas pontas. Sob os olhos espantados dos outros dois jornalistas, enfiou uma delas em seu braço e outro no braço da moça ferida.
– Você está louca? Vai fazer uma transfusão assim? – indignou-se Fisk.
– Você nem sabe qual o tipo de sangue dela! – assustou-se Rifkin.
– Calma, meu sangue é doador universal e eu sei o que estou fazendo. É o único jeito de salvar a vida dela!
O sangue de Jaya passou pelo tubo e entrou pelas veias de Oriana. Não era uma transfusão comum. Junto com células vermelhas e plasma, estavam passando nanomecanismos regeneradores capazes de reconstruir rapidamente o baço destroçado e acelerar a produção de sangue no corpo da jovem. Um procedimento não padrão, mas eficaz com seres humanos.
Aparentemente, havia passado menos de meio litro de sangue pelo tubo, mas o bastou para o corpo frio e pálido de Oriana aquecer-se e recuperar a cor. “Anne” tirou o tubo. Sob os olhos arregalados dos colegas, a enorme ferida começou a mudar de aspecto e a fechar-se.
Em cinco minutos, Oriana estava desperta e curada. Os nanomecanismos provavelmente não sobreviveriam muito tempo no corpo dela, mas haviam feito seu trabalho.
“Bob” já havia chegado, “disparando” rajadas de metralhadora virtual para trás. Subiu na perua e dispararam pela estrada, com “Anne” no volante. Os jornalistas haviam visto tantas coisas espantosas que nem estranharam quando a perua chegou a San Antonio em menos de uma hora minutos. Haviam feito mais de duzentos quilômetros por hora. E daí?
No dia seguinte, “Anne” e “Bob” haviam sumido do mapa e o caso estava nas manchetes de todos os jornais e telejornais do mundo que não eram controlados pela Tuft Corporation. Estes não eram poucos, mas seu silêncio não bastou para conter o escândalo.
Apanhada de surpresa, a subsidiária de biotecnologia foi tomada por agentes do FBI e da CIA. Os arquivos foram apreendidos. Os funcionários (incluindo a espantadíssima Anne Gauge) foram presos e os prisioneiros, hospitalizados.
A matriz conseguiu escapar da investigação. Pagou um exército de advogados e jornalistas e um punhado de deputados e senadores para convencer o mundo de que não estava a par do que se passava na Tuft Genomics, “uma divisão completamente independente”.
Entretanto, ficou marcada pela suspeita e alguns jornais começaram a investigar os laços da Tuft com a New Texan Oil e denunciar suas ligações com os acontecimentos de Pala.
– Viu, Anael? – disse Jaya, mostrando o jornal – Mesmo com terráqueos, às vezes é melhor trabalhar em equipe. Se tivéssemos tentado resolver tudo sozinhos, não conseguiríamos tantos resultados. Agora, Tuft perdeu seu braço biotecnológico e metade do povo da Terra-2 nos ajudará a vigiar os trantorianos.
– A outra metade continua a trabalhar para eles. Mas tem razão.
– Quero ver a cara do pessoal de Velox quando souber.
– Vai ter promoção pra nós. Quer apostar? Um videogame pra mim se eu ganhar. Se não, camarão com trufas e aspargos frescos ao molho de Sauternes pra você
– Pra quê? Manda sintetizar o camarão e jogue todos os videogames que quiser. Hora de comemorar!